23/02/09

A carteira



Este tema dedico ao meu amigo Flávio

Setembro de 1963 - Visita do Presidente da República, Almirante Américo Tomás, a Angola.

Eu, o meu grande amigo Flávio e um outro amigo (Carlitos, Pedro, Tonito?), fomos até ao Posto da Polícia na Rua António Enes para receber bandeirinhas de Portugal para a recepção ao Presidente da República que dentro de dias iria visitar Angola.

Eu e o Flávio, ambos com onze anos na altura, éramos amigos inseparáveis. Para além das corridas de trotineta que fazíamos na nossa Rua Vereador Prazeres, era ver-nos nas barrocas a “voar” para aquela areia branca ou colocar visgo nas árvores para apanhar pássaros.

No Bairro Miramar, não havia figueira que escapasse ou uma goiabeira que ficasse com todas as goiabas à nossa passagem. No armazém do Sr. Mota atirávamos por cima daqueles sacos cheios de grãos de café. Éramos uns putos reguilas, brincalhões, mas de uma pureza incrível.

Já com as bandeiras na mão e, como sempre, na brincadeira, eis que um de nós repara numa carteira que estava junto do pneu de uma camioneta. Um olhar em volta e ninguém por perto à procura dela. O que fazer? Entregar no posto da Polícia? Vamos até às barrocas decidir que destino dar àquela carteira. Chegados lá, aberta a carteira, verificámos que continha cerca de 1300 escudos, na época uma fortuna. Sonhamos o que fazer àquele dinheiro depois de dividido por três. A primeira ideia, comprar umas espingardas Flóber para caça aos pássaros. Mas como iríamos justificar essa compra aos nossos pais pois éramos uns ”tesos”? Indecisos fomos até ao prédio onde morava o Flávio e num local isolado voltamos a pegar no assunto. 1300 escudos era muito dinheiro. Remirámos a carteira. Nela continha algumas fotos e documentos. Estava lá a morada do dono da carteira, Bairro Operário...


Prédio do Sr. Mota onde morou o Flávio e nos anexos a minha irmã


...E, aqueles três miúdos num rebate de consciência e devido à sua formação moral incutida pelos seus pais, foram à procura da rua que ficava mesmo no inicio do Bairro Operário.



Chegados à casa, olham pela entrada e ao fundo, sentado num banco, curvado, com a cabeça entre as mãos, rosto amargurado, estava o dono da carteira.

Entramos e entregamos-lhe a carteira. O homem olhou para aqueles miúdos não acreditando no que estava a acontecer. Naquela carteira estava todo o seu vencimento do mês. Ele julgava-o perdido para sempre. Creio que até os seus olhos emudeceram, pegando na carteira, balbuciando palavras agradeceu-nos e mesmo ali deu-nos uma certa quantia para podermos comprar não as Flóber mas, talvez, para um simples bolo ou gelado ali na “Pastelaria Vouzelense”.



Tenho a impressão que ainda saímos dali lastimando a espingarda que não tivemos mas orgulhosos por sabermos que naquele mês ninguém naquela casa iria passar fome.

... E, de peito inchado pela acção praticada, voltámos para as nossas brincadeiras de crianças ali na Rua Vereador Prazeres no meu bairro de sempre, S. Paulo.

O meu amigo Flávio na direita. Eu estou atrás.


P.S. – Muito do que aqui foi escrito foi-me contado pelo telefone pelo meu amigo Flávio. Incrível que ao fim de mais de quarenta anos, nem eu nem ele nos esquecemos deste episódio e sabíamos que isto se tinha passado com nós os dois. São amizades que ultrapassam décadas e que situações como esta permaneçam tanto tempo na nossa memória.

Foto do prédio do Sr Brás e Vouzelense – Dimas Neto do Bairro Operário – foto da net