20/02/18

Luanda do outro lado do tempo

O colonialista só critica, o luandense critica mas sofre ao ver a cidade onde muitos nasceram - onde crianças em homens e mulheres se tornaram, onde já adultos escolheram o país para dar um futuro melhor à sua família, coisa que em Portugal não o iriam conseguir - no estado que está.

Quando Paulo Dias de Novais aportou a Ilha do Cabo, logo verificou que a ilha não era suficiente. Foi para terra firme e fundou a vila de S. Paulo de Assunção de Loanda a 25 de janeiro de 1576 (só foi cidade em 1605).

442 anos se passaram desde então.

Da cidade dos primeiros anos pouco resta, a cidade cresceu, a cidade mudou, a cidade foi-se modernizando.

A guerra traz sempre desgraça. Não só para aqueles que se julgam as maiores vítimas e que abandonaram a cidade onde nasceram e cresceram. A guerra também vitimiza quem lá ficou.

Hoje vive-se da lembrança desses tempos que foram da nossa juventude, do despertar do corpo, da perda da inocência. A saudade dizem, é uma forma de ser e de estar do nosso povo. Nada melhor para o demonstrar que o fado.

Somos saudosos do tempo que foi nosso, quando o rosto ainda não nos trazia os riscos da juventude perdida.

Hoje olhamos para esse passado e, aliado a ele,... uma cidade, a cidade de Luanda.

fotos: Avª Salvador Correia dos tempos antigos e batuque na ilha do Cabo em 1900

19/02/18

Ondina Teixeira

Para além de Alex, Vasco Rafael e João Sequeira, outros cantores fizeram a nossa delícia nos programas de entretenimento em Luanda, "Chá das Seis" no Restauração, a "Parada de Alegria" no Colonial, "Passatempo" nos SMAE e o "Cazumbi" no Miramar eram sem dúvida os locais privilegiados para um domingo bem passado.

Uma cantora que também é incontornável no panorama musical em Angola é sem dúvida, Ondina Teixeira.

Muitos êxitos, muitas viagens por essa Angola, muitas presenças nos palcos e de uma simpatia que a fama não lhe fez extinguir, a Ondina, que quando foi para Luanda ainda garota, morou ali no meu Bairro de S. Paulo por cima da Sapataria S. João, era presença assídua nos programas que referi. Aqui está então em cartaz no Cazumbi com apresentação de Ruth Soares e Luiz Montez...

(curiosa é a apresentação da Ondina como artista "BoÇa Nova" e não "BoSSa Nova" e a dos "NEgoleiros", que devem ser os "Ngoleiros do Ritmo")

Podemos ouvir a Ondina não no Cazumbi mas no Chá das Seis... "Simplesmente Maria"


17/02/18

Mutamba antiga

Na Rua Luís de Camões a estátua do poeta, que agora é linda, na época o escultor foi quase "crucificado" pois não havia ninguém que ficasse indiferente a um Camões "trinca-espinhas". Caiu o Carmo e a Trindade por tal desfaçatez.


Sabemos também que quando vivemos numa cidade, ou noutro local qualquer, pouco se liga ao que nos rodeia. Vive-se, vai-se aqui e ali e como tudo isso faz parte da nossa vida, é mais uma rua, é a mais um cinema que se vai, é mais um fim de semana de praia ou de farra.

São esses momentos que mais tarde, longe desses locais que passávamos indiferentes, se fazem sentir e nada melhor que estas imagens para as recordar.

A alma chora, a mente vagueia e lá nos vemos agora sim, com o coração nas mãos, a recordar esses tempos, com saudade, e até o poeta afinal não está assim tão mal ali no pedestal.

E como era L(o)uanda antes de nós a conhecermos como era no nosso tempo?

Já não há gente viva destas fotos dos anos mil novecentos e troca o passo. Conhecemos e bem a nossa Mutamba. Todos nós ali apanhávamos o maximbombo para a nossa casa, para o trabalho/escola, para a praia, ou para o local onde íamos gingar ou dançar um "slow" com a princesa dos nossos sonhos.

Alguma vez imaginaram uma Mutamba assim? Pois aqui está como ela era.

10/02/18

Vasco Rafael e João Sequeira

Vasco Rafael e João Sequeira, duas figuras incontornáveis dos palcos angolanos. Quase sempre atuavam nos mesmos espetáculos

Vasco Rafael um fadista com uma voz portentosa, João Sequeira mestre na rábula como actor.

Vi-os muitas vezes em Luanda e uma vez nos SMAE, o Vasco dispensou o microfone. A voz dele chegava.

Felizmente o João Sequeira ainda está vivo e que continue por muitos e longos anos.

09/02/18

Alex

No Maxime, no Embaixador, nos mais famoso cabarets de Luanda não podia faltar o Alex que vi atuar no Cine Restauração e no Cine Colonial.

Nas fotos (que me ofereceu mas sem compromissos) com a irmã Xela (Alex ao contrário que também atuava com ele).

20/12/17

EDAL - Estofos de Angola

5ª Avenida da Zona Industrial - Cazenga - Luanda

Sempre gostei de desenhar. Não tinha, nem tenho, muito jeito para o desenho imaginativo, excepto quando fui desenhador na Empresa Edal – Estofos de Angola, onde tinha como função a criação de diversos tipos de mobiliário, uns a pedido do cliente, outros para nova gama de produtos a lançar no mercado pela Empresa. Saí-me sempre bem dessa função e tenho muito orgulho pelo que fiz nessa empresa que me ficou no coração.

Andava na Escola Industrial de Luanda, como trabalhador/estudante (ensino noturno), trabalhando de dia nas oficinas da União Comercial de Luanda, quando soube de uma vaga como desenhador na EDAL. Concorri e lá fiquei.

O meu estirador de desenho era ainda de régua T tipo escola, só tendo sido alterada para um estirador moderno, um ano depois.

A EDAL era uma filial da MOLAFLEX, fundada pelo avô do atual Presidente da Câmara do Porto, Rui Moreira.

A EDAL foi inaugurada já sobre a direção do pai dele, Rui Höfle de Araújo Moreira.

Foi um trabalho muito criativo, tendo um dos pontos mais altos, a decoração de uma ala do Aeroporto de Luanda. Quando regressei a Luanda em 89 passei por lá e ainda lá estava o que tinha idealizado no meu estirador de desenho. :)

Depois da tropa continuei como desenhador na Empresa. A situação complicou-se com a guerra civil em Luanda. Alguns trabalhadores quando se dirigiam para a Empresa foram roubados e presos por um dos "movimentos" que gladiava pelo controle de Luanda.

Pedi um jeep e juntamente com o motorista fui ao quartel desse "movimento" no Cazenga. Os soldados falavam francês e sorte minha ter tido francês na Industrial. Pedi que um oficial viesse falar comigo. Assim foi. Esse falava português e ouvida a situação, disse-lhe que gostaria de levar os trabalhadores pois sem eles a Empresa não podia funcionar. Acedeu ao meu pedido, "insultou" quem tinha preso os trabalhadores que, depois de um grande abraço, entraram no jeep mas sem antes referirem que queriam o que lhes tinha sido roubado, disse-lhes que o bem mais precioso que tinham era a vida e ala para a EDAL.

Mais tarde devido à violência se ter generalizado e o Cazenga ter sido um dos bairros mais "castigados", mudamos provisoriamente as instalações para a Marginal de Luanda.

Em Setembro de 1975 comprei bilhete de avião de ida e volta, e quando lá voltei, 14 anos depois, ainda laborava e os meus olhos ficaram mar.

Nestas fotos estão alguns que comigo trabalharam. Na p&b os que estão assinalados com seta, trabalhavam na produção, os da foto a cores trabalhavam comigo na sala de desenho.

28/07/11

Textang



Textang, um dos clubes onde a minha presença era uma constante. Localizado no B. da Boavista onde, com os meus manos e amigas, íamos à praia junto ao porto de abrigo. Foi neste clube que começou um namoro que acabou em casamento, o meu. Ao som dos cantores e conjuntos da época, Lindomar Castilho, Roberto Carlos, Nelson Ned, Nilton César, dos Credence, The Archies, Otis Redding, Percy Sledge, do “Tango dos Barbudos”, dos Pasodobles, era na Textang que passava, quase sempre os Domingos à tarde.

Encostados, de cigarro na boca só para o estilo, de longe mirávamos a rapariga que se pretendia para dançar e fazíamos sinal quase imperceptível, para não dar muito nas vistas, que a procura era muita e a oferta pouca.

Acontecia muitas vezes, haver mais que um rapaz a fazer sinal à mesma rapariga e depois era o bom e o bonito quando ela se levantava e pensando que era para nós, passava ao lado e ia dançar com outro. Disfarçava-se o melhor que se podia o caricato da situação e lá íamos de novo para o canto.

As miúdas casadoiras iam com os pais ou com amigas e o cochichar delas era para nós incómodo pois não sabíamos do que falavam e podia ser um ‘bota-abaixo’ à nossa forma de dançar ou elogios. Só elas é que sabiam do que falavam. Felizmente fui sempre bom dançarino e embora tivesse passado algumas situações acima descritas, raramente não dançava.

O ‘travão’ que elas colocavam (braço em frente ao peito), impediam qualquer ‘avanço’ mais malicioso da nossa parte mas, aos poucos, iam cedendo, pois de tanto rodopio as ‘defesas’ iam abaixo e quando davam conta já estávamos encostados. Mas também haviam mulheres mais maduras que iam lá sozinhas para ‘encontrarem’ um parceiro ocasional. Esta história foi verídica e passou-se com um amigo meu. Ele fez sinal a uma mulher trintona e eis que quando ela se levanta verificámos que coxeava. Como ela veio ao encontro dele que remédio teve ele senão dançar o ‘slow’ que nesse momento tocava. Era uma música do Percy Sledge (nunca me esqueci desse pormenor).

E lá foram eles enlaçados, muito juntinhos, e ela para cima e para baixo consoante o pé que poisava. Quase a música acabada, ele lança-nos um pedido de socorro. Pediu-nos para o rodearmos e para irmos para a casa de banho. Assim fizemos e tinha acontecido o inevitável. Com tanto ‘roço’ o nosso amigo não aguentou e…


Calças e cuecas lavadas. Secou-se o mais possível e a camisa ‘cintada’ (muito utilizada na época) por fora, serviu de resguardo ao molhado que se notava. Foi um riso pegado entre nós.

Depois da farra acabada, vi-a indo pela Avª da Boavista, no seu coxear, perdendo-se no escuro da noite.