Fui aluno de uma professora que me marcou pela positiva, a Professora Luísa Brito. Essa minha professora de quem tenho gratas recordações, que me deu aulas no Ciclo Preparatório na Escola Industrial de Luanda no ano lectivo 1963/1964 e na João Crisóstomo 1964/1965 na disciplina de Ciências Geográfico-Naturais, morava numa vivenda perto da Escola Industrial (Rua António Nobre) e tinha três filhas. Em 1965 nasce o 4º filho, um rapaz.
De todos os professores que tive, foi a única que nunca esqueci.
Fui muitas vezes a essa vivenda pois a Professora dava-me lá explicações. Embora eu fosse um muito bom aluno, mas como esteve muito tempo ausente devido à gravidez, sempre era uma ajuda para o exame do ciclo. Sei que as filhas estavam muitas vezes presentes. Como gostava muito dessa Professora tinha sempre 20 valores pois quem nos ensina e sabe ensinar, sabe motivar e nós damos o nosso melhor. Um dia deu-me um 16 e eu perguntei-lhe a razão já que tinha tudo certo e ela disse-me: «Mário dou-te um 16 que é para não te habituares mal».
A entrada para o interior da vivenda, em frente de uma Escola Primária entre a Vila Clotilde e a Vila Alice, era à esquerda e, em frente do portão, um "corredor" onde ficava o carro ("SAAB" branco). Atrás, uma mangueira de onde muitas mangas comi.
A Professora Luísa Brito nascida em Benguela, foi muito nova para a cidade do Porto onde tirou o curso de Biologia na Faculdade Ciências do Porto. Regressa a Angola (neste caso a Luanda), já casada.
Havia uma empatia muito grande entre mim e esta Professora. Talvez porque ela tinha 3 meninas e desejasse um rapaz. Lembro-me de ficar "aborrecido" quando soube que ia ter um rapaz. Senti-me de fora. Tinha acabado o meu estado de "graça" pensava eu. Mas não, continuei ser o menino que procurava tirar 20 valores para ter o prazer de ser chamado ao quadro quando havia qualquer matéria em ciências mais duvidosa para os outros alunos.
Depois fui trabalhar e perdi o contacto. 54 anos passados, através de uma das filhas, voltei a "encontrá-la". Infelizmente tarde, faz dia 24 deste mês, 11 anos que faleceu.
O que me impressiona é o facto de me lembrar de tantos pormenores. Tinha na época 12 anos. Quando muito se gosta, não há tempo nem espaço que faça esquecer.
Até Sempre minha Professora, Luísa Brito!
Eu com 12 anitos... como o tempo passa!
23/03/18
27/02/18
As farras em Luanda
Não havia um fim de semana que não se fosse dar um pé de dança, se não era nos quintais com o conjunto "Os redondos" (entenda-se discos ;) ), era no Transmontano, na Casa do Minho, na Textang, na Terra Nova e outros locais, e eram muitos os conjuntos que abrilhantavam essas farras, como "A Teima", "Os 5 de Luanda" e... curiosamente, num escrito meu, tenho datas e locais onde dancei em 1972 ao som dos:
- The Blue Rivers (16 de janeiro, 19 de março e 25 junho de 1972 na Textang)
- Os Santos (6 de fev. e 7 de abril de 1972 - Textang)
- African Boys (atuaram num Carnaval - 12 fev. 1972 - nos SMAE em que lá esteve tb o Joselito)
- New Lovers - 5 de março, 28 maio e 23 de julho de 1972 - Textang, 17 set. e 22 de out. na Terra Nova
- Conjunto Time - 3 de setembro de 1972 - Terra Nova
Claro que como era um frequentador assíduo do "Clube Transmontano" essas farras não eram mencionadas, "Os 5 de Luanda" e "A Teima" eram quase uma constante nesse Clube.
Aqui estão alguns desses Conjuntos:
- The Blue Rivers (16 de janeiro, 19 de março e 25 junho de 1972 na Textang)
- Os Santos (6 de fev. e 7 de abril de 1972 - Textang)
- African Boys (atuaram num Carnaval - 12 fev. 1972 - nos SMAE em que lá esteve tb o Joselito)
- New Lovers - 5 de março, 28 maio e 23 de julho de 1972 - Textang, 17 set. e 22 de out. na Terra Nova
- Conjunto Time - 3 de setembro de 1972 - Terra Nova
Claro que como era um frequentador assíduo do "Clube Transmontano" essas farras não eram mencionadas, "Os 5 de Luanda" e "A Teima" eram quase uma constante nesse Clube.
Aqui estão alguns desses Conjuntos:
24/02/18
Duo Ouro Negro - Luanda
Luanda quem de ti não gostou,
é porque nas tuas ruas não andou.
"Luanda,
Debruçada sobre o mar
Onde as ondas, uma a uma,
vêm desfazer-se em espuma,
À tua Ilha beijar...
Luanda,
Da Fortaleza em pendor,
Na expressão de uma aguarela,
Que o artista, com fervor,
Pintou majestosa e bela...
Luanda,
Do batuque p'la noitinha,
Das acácias em flor...
És tu, Luanda rainha,
Senhora do meu amor."
Eleutério Sanches
é porque nas tuas ruas não andou.
"Luanda,
Debruçada sobre o mar
Onde as ondas, uma a uma,
vêm desfazer-se em espuma,
À tua Ilha beijar...
Luanda,
Da Fortaleza em pendor,
Na expressão de uma aguarela,
Que o artista, com fervor,
Pintou majestosa e bela...
Luanda,
Do batuque p'la noitinha,
Das acácias em flor...
És tu, Luanda rainha,
Senhora do meu amor."
Eleutério Sanches
23/02/18
Casamento à "pato"
O casamento decorria no Bar Restinga ali na Ilha. Todos janotas, o meu irmão com mais à vontade que eu, demos os parabéns aos noivos. Como ali há sempre familiares de um lado e de outro não sabem à partida quem é convidado de quem. Fotos aqui e acolá, com os noivos e com todo o pessoal convidado, afinal éramos mais uns entre tantos.
Sobe-se ao primeiro piso. Mesa farta há que comer e beber, e conversar com os empregados principalmente com o que estava à porta de saída.
Há que arranjar uma garina para um pé de dança e assim se juntar aos noivos e acompanhantes para não levantar suspeitas.
Os empregados habituados a este tipo de comportamento de quem entra a "pato" depressa se aperceberam que éramos uns estranhos, mas nada disseram e lá para dentro deviam estar a sorrir com a nossa desfaçatez.
De repente apercebemos que a nossa presença tinha sido notada. Com cruzamento de informações verificaram que não éramos convidados nem de um lado nem do outro dos nubentes.
Há que bater em retirada e como quem não quer a coisa dirigimos para a saída. O porteiro apercebeu-se da nossa retirada estratégica e fez de conta que estava a tratar de abastecer a mesa, deixando a porta entreaberta para o "escapanço".
Descemos as escadas rapidamente e zarpámos em boa correria.
foto: o Bar Restinga com a nossa escada de "salvação".
Sobe-se ao primeiro piso. Mesa farta há que comer e beber, e conversar com os empregados principalmente com o que estava à porta de saída.
Há que arranjar uma garina para um pé de dança e assim se juntar aos noivos e acompanhantes para não levantar suspeitas.
Os empregados habituados a este tipo de comportamento de quem entra a "pato" depressa se aperceberam que éramos uns estranhos, mas nada disseram e lá para dentro deviam estar a sorrir com a nossa desfaçatez.
De repente apercebemos que a nossa presença tinha sido notada. Com cruzamento de informações verificaram que não éramos convidados nem de um lado nem do outro dos nubentes.
Há que bater em retirada e como quem não quer a coisa dirigimos para a saída. O porteiro apercebeu-se da nossa retirada estratégica e fez de conta que estava a tratar de abastecer a mesa, deixando a porta entreaberta para o "escapanço".
Descemos as escadas rapidamente e zarpámos em boa correria.
foto: o Bar Restinga com a nossa escada de "salvação".
22/02/18
A volta dos tristes
Raro era o fim de semana que a ilha não se enchia de carros. Nos 7 km, desde a entrada até à ponta da ilha, as praias fervilhavam de vida.
Era também a altura que os pais metiam a prole (filhos) no carro e lá iam fazer a volta dos tristes.
A volta dos tristes porque era sempre a mesma coisa. Garotada dentro do carro, rádio a ouvir o relato do "puto" (entenda-se de Portugal) e lá se ia "mergulhando" naquele trânsito infernal.
Chegados à ponta da ilha, se desse para parar, andava-se um pouco pela praia ou se encostava ao carro ouvindo a rádio não fosse o Benfica ou outro clube marcar um golo, metia-se a garotada outra vez dentro do carro e fazia-se o caminho de regresso, outra vez numa fila infernal.
Os garotos faziam chinfrineira, o pai ralhava, a mãe punha "água na fervura" e chegados a casa mais cansados do que nunca, com sono, lá se adormecia rapidamente que no dia seguinte era dia de trabalho e de escola.
Outra volta que se fazia era ir até ao aeroporto, ver os aviões (já tema aqui colocado).
Depois os garotos cresciam, o carro ia mais vazio, já não havia o barulho do costume e acabava a volta dos tristes.
Na ponta da ilha havia o Restaurante Mandarim de comida chinesa, e que eu me lembre foi construída lá para os anos 70. Lembro-me de ir até à ponta da ilha e não haver Mandarim nenhum.
fotos: imagem com carros bem antigos na ponte no regresso da ilha,o Restaurante Mandarim e o trânsito na ponta da ilha ao fim-de-semana.
Era também a altura que os pais metiam a prole (filhos) no carro e lá iam fazer a volta dos tristes.
A volta dos tristes porque era sempre a mesma coisa. Garotada dentro do carro, rádio a ouvir o relato do "puto" (entenda-se de Portugal) e lá se ia "mergulhando" naquele trânsito infernal.
Chegados à ponta da ilha, se desse para parar, andava-se um pouco pela praia ou se encostava ao carro ouvindo a rádio não fosse o Benfica ou outro clube marcar um golo, metia-se a garotada outra vez dentro do carro e fazia-se o caminho de regresso, outra vez numa fila infernal.
Os garotos faziam chinfrineira, o pai ralhava, a mãe punha "água na fervura" e chegados a casa mais cansados do que nunca, com sono, lá se adormecia rapidamente que no dia seguinte era dia de trabalho e de escola.
Outra volta que se fazia era ir até ao aeroporto, ver os aviões (já tema aqui colocado).
Depois os garotos cresciam, o carro ia mais vazio, já não havia o barulho do costume e acabava a volta dos tristes.
Na ponta da ilha havia o Restaurante Mandarim de comida chinesa, e que eu me lembre foi construída lá para os anos 70. Lembro-me de ir até à ponta da ilha e não haver Mandarim nenhum.
fotos: imagem com carros bem antigos na ponte no regresso da ilha,o Restaurante Mandarim e o trânsito na ponta da ilha ao fim-de-semana.
21/02/18
A kitandeira
Eh "minino, minino", quer comprar uma pulseira de missanga para oferecer à namorada?
Assim apregoavam as nossas kitandeiras (quitandeiras), ou para missangas, ou para fruta que por Luanda deambulavam, à procura de um comprador.
Mas a kitandeira de missangas depressa deu lugar ao de vender fruta, pois quem é que em Luanda não sabia fazer uma pulseira, um colar ou um anel de missangas? Todos nós aprendemos com o fio de nylon, passar nos furinhos e depois de algum trabalho, aparecer trabalho feito. Com nomes, com corações para oferecer à mais que tudo, e como era bonito isso que fazíamos.
E fazer cintos dos maços de tabaco? A nossa imaginação era prodigiosa, não havia televisão e a net era a nossa rua. Tudo se conjugava para que a nossa infância fosse feliz e não sentados à frente de uma "janela" (windows) como hoje as crianças estão.
"Laranja, laranja minha "sinhora"?!"
Assim apregoavam as nossas kitandeiras (quitandeiras), ou para missangas, ou para fruta que por Luanda deambulavam, à procura de um comprador.
Mas a kitandeira de missangas depressa deu lugar ao de vender fruta, pois quem é que em Luanda não sabia fazer uma pulseira, um colar ou um anel de missangas? Todos nós aprendemos com o fio de nylon, passar nos furinhos e depois de algum trabalho, aparecer trabalho feito. Com nomes, com corações para oferecer à mais que tudo, e como era bonito isso que fazíamos.
E fazer cintos dos maços de tabaco? A nossa imaginação era prodigiosa, não havia televisão e a net era a nossa rua. Tudo se conjugava para que a nossa infância fosse feliz e não sentados à frente de uma "janela" (windows) como hoje as crianças estão.
"Laranja, laranja minha "sinhora"?!"
20/02/18
Luanda do outro lado do tempo
O colonialista só critica, o luandense critica mas sofre ao ver a cidade onde nasceu - onde criança em homem e mulher se tornou, onde já adulto escolheu o país para dar um futuro melhor à sua família, coisa que em Portugal não o iria conseguir - no estado que está.
Quando Paulo Dias de Novais aportou a Ilha do Cabo, logo verificou que a ilha não era suficiente. Foi para terra firme e fundou a vila de S. Paulo de Assunção de Loanda a 25 de janeiro de 1576 (só foi cidade em 1605).
442 anos se passaram desde então.
Da cidade dos primeiros anos pouco resta, a cidade cresceu, a cidade mudou, a cidade foi-se modernizando.
A guerra traz sempre desgraça. Não só para aqueles que se julgam as maiores vítimas e que abandonaram a cidade onde nasceram e cresceram. A guerra também vitimiza quem lá ficou.
Hoje vive-se da lembrança desses tempos que foram da nossa juventude, do despertar do corpo, da perda da inocência. A saudade dizem, é uma forma de ser e de estar do nosso povo. Nada melhor para o demonstrar que o fado.
Somos saudosos do tempo que foi nosso, quando o rosto ainda não nos trazia os riscos da juventude perdida.
Hoje olhamos para esse passado e, aliado a ele,... uma cidade, a cidade de Luanda.
fotos: Avª Salvador Correia dos tempos antigos e batuque na ilha do Cabo em 1900
Quando Paulo Dias de Novais aportou a Ilha do Cabo, logo verificou que a ilha não era suficiente. Foi para terra firme e fundou a vila de S. Paulo de Assunção de Loanda a 25 de janeiro de 1576 (só foi cidade em 1605).
442 anos se passaram desde então.
Da cidade dos primeiros anos pouco resta, a cidade cresceu, a cidade mudou, a cidade foi-se modernizando.
A guerra traz sempre desgraça. Não só para aqueles que se julgam as maiores vítimas e que abandonaram a cidade onde nasceram e cresceram. A guerra também vitimiza quem lá ficou.
Hoje vive-se da lembrança desses tempos que foram da nossa juventude, do despertar do corpo, da perda da inocência. A saudade dizem, é uma forma de ser e de estar do nosso povo. Nada melhor para o demonstrar que o fado.
Somos saudosos do tempo que foi nosso, quando o rosto ainda não nos trazia os riscos da juventude perdida.
Hoje olhamos para esse passado e, aliado a ele,... uma cidade, a cidade de Luanda.
fotos: Avª Salvador Correia dos tempos antigos e batuque na ilha do Cabo em 1900
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